ANNY WEST

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DESCARBONIZAÇÃO: MODA E COP30, AFINAL, QUAL A RELAÇÃO?

O Brasil recebeu a COP30 no coração da Amazônia, reunindo países signatários, empresas, entidades e sociedade civil para negociar caminhos concretos de enfrentamento à crise climática. Mas onde a moda entra nessa agenda?

A conferência recolocou em evidência o avanço — e os limites — da agenda climática dez anos após o Acordo de Paris, pacto que define metas de redução de emissões, transição energética e financiamento climático.

Ficou claro que descarbonização e transição energética não são apenas diretrizes técnicas, mas pilares estratégicos para conter o aquecimento global. E que a redução de emissões precisa, inevitavelmente, avançar por todos os setores da economia.

Pouco antes da COP30, a Carta da Indústria da Moda para Ação Climática da ONU (Fashion Charter) — acordo internacional da UNFCCC que reúne marcas e fornecedores para alinhar o setor à meta de 1,5°C e impulsá-lo rumo à neutralidade de carbono até 2050, divulgou um comunicado público, assinado por mais de 70 marcas e fabricantes, pedindo que formuladores de políticas acelerem uma transição justa para energia renovável durante a conferência.

Logo, este ensaio propõe iluminar a urgência desse movimento dentro da moda. Segundo a ONU, o setor é responsável por cerca de 10% das emissões globais de carbono, mais do que todos os voos internacionais e o transporte marítimo somados.

MODA E CLIMA DEIXAM DE SER UNIVERSOS PARALELOS

Antes de seguir, vale uma pausa rápida para explicar por que falamos em descarbonização. O dióxido de carbono (CO₂) retém calor na atmosfera e intensifica o aquecimento global. A maior parte dessas emissões vem da queima de combustíveis fósseis, base energética que sustenta praticamente todas as cadeias produtivas. 

Quando compreendemos isso, fica mais tangível enxergar como a moda entra nessa conversa: da fabricação das fibras ao transporte das peças, tudo depende de energia e boa parte dessa energia, hoje, ainda emite CO₂. Descarbonizar é reduzir esse impacto. A partir daqui, moda e clima deixam de ser universos separados.

A MATRIZ ENERGÉTICA DA MODA

Da origem das fibras ao acabamento dos tecidos, quase cada etapa ainda opera com carvão, gás ou biomassa, gerando emissões intensas e calor industrial insalubre. O peso climático da indústria mostra a urgência de repensar matrizes energéticas e acelerar a transição para processos de baixa emissão.

Neste ano, a Fashion Revolution lançou a segunda edição do relatório What Fuels Fashion?, que analisa o nível de transparência das marcas sobre suas práticas climáticas e energéticas, tanto nas operações próprias quanto em toda a cadeia de suprimentos.

Entre 200 marcas avaliadas, apenas 10% divulgam metas de eletricidade renovável para a cadeia, e só 6% apresentam metas mais amplas de energia limpa. O recado é direto: o setor ainda não tem um plano público consistente para abastecer sua produção com energia renovável.

O principal gargalo está na cadeia de suprimentos. O estudo mostra que marcas listadas em bolsa, que respondem diretamente a acionistas, representam 59% das empresas com pontuação zero em rastreabilidade, falhando no nível básico de transparência e revelando uma lacuna séria de responsabilidade em critérios ESG.

Para completar, ao não investirem na base produtiva, muitas marcas acabam transferindo responsabilidades para fornecedores em países emergentes, onde a remuneração é menor e as condições de trabalho frequentemente frágeis. Apenas 7% das empresas demonstram atuação política em defesa de melhorias nos países produtores, e só 2% divulgam resultados concretos dessas iniciativas. 

Somado a isso, somente 6% divulgam investimentos diretos em energias renováveis em escala de rede,  um sinal claro de que, sem pressão e compromisso real, a transição energética no setor não avança.

Dez anos após o Acordo de Paris, o planeta já ultrapassou limites que antes pareciam distantes. A temperatura média global flerta com 1,5°C, e cada novo relatório científico reforça que a janela para evitar danos irreversíveis está se estreitando.

Nesse cenário, a moda não pode mais se posicionar como espectadora. É uma indústria global, veloz, de alto impacto e, justamente por isso, com enorme poder de transformação.

As metas climáticas não serão alcançadas sem que setores intensivos em energia, como o têxtil, assumam compromissos claros, mensuráveis e públicos. Isso implica abandonar a lógica das “melhorias marginais” e avançar para uma transição energética estrutural, com investimento na base da cadeia, rastreabilidade efetiva e metas alinhadas à ciência.

E isso não se resolve apenas com manifestos setoriais: depende de incentivos concretos das marcas com maior poder financeiro, aquelas que movimentam bilhões, para destravar políticas públicas, fortalecer o financiamento climático e direcionar recursos aos países que sustentam a produção global da moda, como China, Bangladesh e Vietnã.

E talvez seja justamente essa a síntese da década pós-Acordo de Paris: compreender que clima e moda não caminham em trilhas paralelas. Eles se tocam, se influenciam e se definem mutuamente.

No fim, é essa linha fina que costura Amazônia, Paris e o closet de qualquer pessoa: perceber que cada decisão política, industrial ou criativa altera o clima que recairá sobre nós nos próximos anos.

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