ANNY WEST

FASHION      SUSTENTABILIDADE      LIFESTYLE

ALÉM DA COR: DESCOBRINDO CAMINHOS SUSTENTÁVEIS NO TINGIMENTO DE ROUPAS

Neste ensaio, exploraremos o tingimento na indústria da moda. A cor é vida: alegra, expressa personalidade e até traduz nosso humor diário. Quantas vezes você já escolheu uma roupa apenas porque a cor parecia alinhar com seu estado de espírito? Mas por trás dessa cor vibrante, existe um processo complexo, e nem sempre sustentável, que revela desafios que vão muito além da simples aplicação do pigmento.

Comecei a investigar o tema esperando encontrar respostas claras sobre os impactos concretos do tingimento têxtil nos oceanos e as soluções em andamento. Porém, conforme avancei, percebi que a questão é mais complexa do que parece. As alternativas existentes ainda não suportam a escala da indústria. Talvez o caminho mais honesto seja propor o debate, trazer à tona os impactos, discutir possibilidades e reconhecer os desafios ainda em aberto.

Impactos do tingimento têxtil

A fabricação de roupas começa na fiação da matéria-prima, passa pela tecelagem e termina com o acabamento, etapa que inclui processos como o tingimento. De acordo com o estudo da Quantis International 2018, os três principais fatores de impacto da poluição global do setor fashion são o tingimento e o acabamento, a preparação do fio e a produção de fibras.

O artigo The Environmental Price of Fast Fashion, citado pela Quantis BCG Company, aponta que o setor da moda consome mais de 79 trilhões de litros de água por ano. 

A matéria “The Environmental Impact of Fast Fashion Explained”, publicada pelo o Earth.org, aponta que a indústria da moda é a segunda maior indústria consumidora de água, exigindo cerca de 700 galões para produzir uma camiseta de algodão e 2.000 galões de água para produzir um par de jeans.

Como funciona o processo de tingimento

O tingimento do tecido ocorre em três etapas: preparação, tingimento e fixação. 

A preparação consiste em deixar o tecido ou os fios prontos para receber a cor, o que pode envolver lavagem prévia ou aplicação de agentes químicos. O tingimento, por sua vez, é a aplicação da cor, geralmente feita em equipamentos que elevam a temperatura da solução e agitam o tecido em sistema fechado. Existem ferramentas que auxiliam a fixação da cor ao aplicar pressão sobre as fibras. Para garantir a durabilidade da coloração, utiliza-se um fixador, produto químico dissolvido na solução de tingimento para preservar a cor por mais tempo.

No tingimento por imersão, por exemplo, o tecido fica submerso na solução de corante por um período, garantindo contato contínuo até a cor se fixar. Para alcançar eficiência, o processo pode ser repetido várias vezes com alta intensidade de fixação. 

Segundo o relatório Pulse of the Fashion Industry (2017), o tingimento pode consumir até 150 litros de água por quilo de tecido. Nos países em desenvolvimento, como Índia, Bangladesh e China, onde grande parte da produção ocorre e a legislação ambiental é menos rigorosa, as águas residuais frequentemente são despejadas sem tratamento nos rios.

By: Pexels

Alternativas sustentáveis

Diante desse cenário, comecei a refletir sobre caminhos possíveis. Em um mundo que avança rumo à sustentabilidade, seria natural imaginar que essa transformação já estivesse resolvida. Mas, olhando mais de perto, vejo que ainda não existe uma solução clara, eficaz e acessível para transformar em grande escala esse setor da moda.

Ainda assim, acredito no poder dos pequenos passos. Mudanças locais, mesmo que tímidas, são sementes de um futuro mais ético, consciente e conectado com o planeta.

A seguir, compartilho algumas das técnicas de tingimento sustentável disponíveis hoje — alternativas que apontam para um novo caminho possível na moda.

1 – Tingimento sustentável com materiais naturais


Esse processo utiliza corantes extraídos de fontes orgânicas, como plantas, frutas e minerais. Além disso, elimina metais pesados e substâncias tóxicas. 

Ingredientes eco-friendly: causam impacto ambiental mínimo e são cada vez mais usados no acabamento têxtil.

2 – Substituição dos agentes de fixação por alternativas mais sustentáveis


Em alguns processos, solventes são usados para fixar a cor, especialmente quando o corante não é solúvel em água. Esses solventes, amplamente empregados na indústria, geralmente são derivados do petróleo, uma fonte fóssil não renovável, e causam impactos ambientais significativos, tanto pela origem quanto pelos resíduos gerados.

Uma forma de reduzir esse impacto é incentivar a pesquisa e o uso de agentes de fixação de origem sustentável. Já existem iniciativas promissoras, como a da empresa Colorifix, que substitui substâncias químicas convencionais por compostos derivados de biocombustíveis, promovendo um processo mais limpo e menos agressivo ao meio ambiente.

3 – Tingimento com CO₂ supercrítico

Nesse método, o CO₂ supercrítico substitui a água para transportar o corante até as fibras. O processo acontece em circuito fechado: o CO₂ é pressurizado, aplicado e depois reciclado, eliminando o uso de água e reduzindo a geração de resíduos químicos.

EMPRESAS EM EVOLUÇÃO CONSCIENTE

Patagonia – fundada em 1973 na Califórnia (EUA)

A Patagonia foi fundada por Chouinard sob uma perspectiva humanista. Desde então a marca vem apoiando revoluções em favor de uma moda mais consciente.

O vídeo a seguir apresenta uma alternativa natural da marca aos corantes sintéticos tradicionalmente usados para dar aos jeans a cor índigo.

Eileen Fisher – fundada em Nova York em 1984

A Eileen Fisher investe em técnicas de tingimento com menor impacto ambiental. Desde 2012, a marca adota o uso de seda tingida de forma responsável, um processo que continua em evolução, com foco constante na melhoria do acabamento dos tecidos.

Confira um dos processos sustentáveis de tingimento de seda aplicados pela marca.

DyeCoo – fundada na Holanda em 2008

A DyeCoo desenvolve tecnologia que usa dióxido de carbono pressurizado para dissolver e aplicar corantes, resultando em um processo eficiente e sem uso de água. 

Conheça a tecnologia de tingimento com CO₂ em ação.

PONTO FINAL, COM PROPÓSITO:

Estamos na Década do Oceano, e falar sobre o impacto da moda na água ampliou minha visão sobre como criar em harmonia com a natureza. Ao trazer novas possibilidades, percebo um caminho se abrindo, seja em soluções locais, seja em tecnologias emergentes.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com*

pt_BR